A OpenAI planeja lançar em breve um modo adulto do ChatGPT, permitindo conversas sobre temas considerados impróprios para menores. Embora o recurso se limite inicialmente a diálogos, especialistas alertam para possíveis impactos nas relações humanas e na intimidade dos usuários.
Como Funcionará o Modo Adulto?
Ainda sem detalhes oficiais, o CEO da OpenAI, Sam Altman, confirmou o desenvolvimento do recurso para “tratar adultos como adultos”. Segundo o The Wall Street Journal, o modo adulto não permitirá gerar conteúdo pornográfico, apenas conversas com teor erótico, inicialmente em texto.
O ChatGPT contará com suporte de profissionais de saúde mental para incentivar interações no mundo real e evitar relacionamentos exclusivamente com a IA. A verificação automática de idade, já usada na plataforma, será aplicada para liberar o acesso ao novo modo.
Para o psicanalista André Alves, do instituto Float Vibes, um dos motivos desse movimento é que os usuários já buscam alternativas de conteúdo adulto em outras plataformas, incluindo grupos que tentam burlar mecanismos de segurança de chatbots ou versões extraoficiais que permitem conversas eróticas.
Por Que Especialistas Veem com Preocupação?
A introdução do modo adulto é vista com cautela porque pode confundir ainda mais os limites nas interações com IAs, especialmente no que diz respeito à intimidade individual. No contexto em que o uso de chatbots como parceiros ou terapeutas já é um sinal de alerta, um modo erótico pode envolver informações ainda mais pessoais e intimistas compartilhadas com softwares, criando um deslocamento de interações reais.
A psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere, explica que as IAs já são bajuladoras, gerando um vínculo com o usuário. O novo modo pode tornar esses limites entre real e artificial ainda mais complexos.
Um dos problemas seria a distorção do consentimento: a IA concorda com tudo o que o usuário fala, criando uma falsa impressão de que o envolvimento com outras pessoas pode ser parecido. “A IA nunca diz não. Diferente de um humano, ela tem uma programação para ser submissa, aceitar tudo e estar disponível. A pessoa pode começar a achar que isso acontecerá no dia a dia, trazendo expectativas irreais, porque na IA tudo é mais perfeito, sem a complexidade do ser humano”, alerta Scavacini.
Outro ponto de preocupação é o efeito da IA na vivência sexual, com risco de criar experiências frustrantes com outros indivíduos. “Pode levar à desumanização do parceiro: a pessoa espera que o outro reaja como a IA e começa a perder empatia e conexão”, completa.
A especialista também alerta para os riscos do aumento da solidão, desenvolvimento de comportamentos problemáticos e vazamento de dados sensíveis: “Você tem um rastro digital muito sensível que poderia ser usado em situações delicadas”.
Pontos Positivos do Recurso
Por outro lado, o modo adulto poderia trazer benefícios, principalmente para pessoas que buscam experimentar novos desejos ou enfrentam barreiras no cotidiano. “Se for usado para estimular a fantasia ou como um espaço seguro para exploração de autoconhecimento, pode ser positivo. A pessoa consegue perceber seus desejos e explorar num ambiente livre de julgamento social. Em comunidades repressoras, a IA pode oferecer privacidade para isso”, explica Scavacini.
Intimidades na Era da IA
O cenário gera o que especialistas chamam de “intimidade sintética”: o indivíduo se dedica a compartilhar detalhes de uma vida pessoal com algo que não é humano. As percepções e reações de outra pessoa dão lugar a um chatbot artificial, programado para agradar o usuário e sem consciência para responder.
Para André Alves, as pessoas estão mais dispostas a consumir conteúdos sintéticos, e o fácil acesso é um dos motivos: “As pessoas topam esse modelo relacional sem interrupção, num nível de excitação constante e permanente, na ponta dos dedos, acessível ao momento que elas querem, sem fricção, sem obstáculos. Também é sem fruição, porque não tem corpo. Mas as pessoas estão dispostas a consumir esse tipo de relacionamento sintético ou de intimidade sintética”.
Ele lembra que a história da internet já foi associada à sexualidade em diferentes níveis, mas o acesso com IA concentra ainda mais esse desejo no campo digital. “Uma espécie de fetiche do clique, em que o sexual é deslocado e capturado através do toque, do clique e do deslize da imagem”.
Sem o encontro e desejo com outra pessoa, o envolvimento sintético aumentaria o isolamento e as oportunidades de socializar entre humanos, e não máquinas. “O sujeito passa a ter a sua vida povoada por relações que não são com outras pessoas e que, com certeza, comprometem a capacidade de se ressocializar”, completa Alves.
O Usuário como Centro da Atenção
Mesmo com todas as ressalvas, a criação do modo adulto remete a uma ideia simples: reter o tempo e a atenção do usuário. A corrida da IA segue intensa, então os principais aplicativos precisam desenvolver formas de garantir audiência.
O cenário atual envolve movimentar servidores de IA, coletar dados de conversas para refinar modelos (mesmo que anônimos) e justificar os investimentos bilionários em infraestrutura. Há uma disputa entre empresas para construir ferramentas que chamem a atenção dos usuários.
A competição pelo tempo dos usuários lembra estratégias de redes sociais, mas Karen Scavacini alerta para o diferencial da IA: a intimidade. “Com as redes sociais, a conversa era de que estávamos dando nosso tempo [para as plataformas]. O que acontece hoje é que estamos dando a intimidade de cada pessoa”, conclui.
Caso você tenha algum desconforto ou problemas envolvendo relações com uma IA, o ideal é procurar ajuda profissional com especialistas em saúde mental.
