Por que Hollywood ainda tem medo de filmes com protagonismo feminino?
A indústria cinematográfica continua a tratar filmes com protagonismo feminino como uma aposta arriscada. Mesmo após décadas de movimentos como o #MeToo e iniciativas de empoderamento feminino, a realidade nos estúdios demonstra que Hollywood ainda enxerga essas produções como secundárias. O recente cancelamento de Be Fri, uma animação da Pixar que vinha sendo desenvolvida há três anos, expõe essa mentalidade retrógrada.
Segundo informações do Wall Street Journal, a produção foi interrompida no final de 2023, após quatro reformulações e uma reescrita de roteiro em tempo recorde. O projeto, idealizado pela diretora Kristen Lester — que também dirigiu o curta-metragem Purl (2019) —, acompanharia duas adolescentes que descobrem que sua série favorita, no estilo de Sailor Moon, é real. Juntas, elas embarcariam em uma jornada interdimensional para salvar a humanidade. No entanto, a Disney considerou a trama “feminina demais” e optou pelo cancelamento, mesmo com a equipe de 50 profissionais já envolvida.
Um ex-funcionário da Pixar, ouvido pelo The Hollywood Reporter, revelou que a Disney exigia que os protagonistas fossem “mais representativos para meninos”. Em outras palavras, a empresa rejeitou um projeto girl power por medo de não atrair o público masculino — uma lógica que ignora décadas de sucesso de produções centradas em mulheres.
Hollywood prioriza bilheteria em vez de representatividade
O cancelamento de Be Fri não é um caso isolado. Ele faz parte de um padrão preocupante na Pixar e em Hollywood como um todo. Após o fracasso de Lightyear (2022) — que teve um beijo entre pessoas do mesmo sexo cortado para evitar polêmicas — e a reformulação de Elio (2025) para remover uma trama LGBTQIA+, fica claro que os estúdios estão mais preocupados com a opinião pública do que com a inovação.
Pete Docter, diretor criativo da Pixar, justificou os cortes afirmando que a empresa “estava fazendo um filme, não gastando centenas de milhões de dólares em terapia”. Essa declaração resume a mentalidade atual: preferir fórmulas seguras a histórias originais e representativas. No entanto, como mostra o sucesso de produções como Divertida Mente 2 — que se tornou a animação mais lucrativa da história da Pixar — filmes com protagonismo feminino podem, sim, ser blockbusters.
Além disso, o estúdio já lançou Red: Crescer é uma Fera, uma animação focada na vivência asiática de uma adolescente, sem alarde inicial. Divertida Mente 2, por sua vez, trouxe as emoções de uma adolescente como protagonista, provando que histórias femininas não só são viáveis como podem ser extremamente rentáveis.
Por que os filmes com protagonismo feminino são tão importantes?
O cancelamento de Be Fri escancara um problema estrutural em Hollywood: a relutância em apostar em narrativas femininas. Grandes estúdios, como a Disney, parecem temer que essas histórias não atraiam o público masculino, ignorando que o público consumidor de cinema é diverso e está cada vez mais exigente.
Felizmente, o sucesso de produções como Barbie (2023), que arrecadou mais de US$ 1,4 bilhão mundialmente, e Frozen: Uma Aventura Congelante, que se tornou um fenômeno cultural, demonstra que o público está pronto para consumir e celebrar histórias com protagonismo feminino. Além disso, obras internacionais como Guerreiras do K-Pop — que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2026 — mostram que a indústria pode inovar sem medo.
Para ilustrar esse ponto, listamos a seguir oito produções que provam como os filmes com protagonismo feminino não só existem como também conquistam o público e transformam a indústria:
1. Jogos Vorazes (2012-2015)
Baseada na saga literária de Suzanne Collins, a franquia Jogos Vorazes apresentou ao mundo uma das personagens femininas mais icônicas do cinema: Katniss Everdeen. Interpretada por Jennifer Lawrence, a história acompanha uma jovem em um mundo distópico onde adolescentes são forçados a lutar até a morte em um reality show televisionado. Um sucesso de bilheteria e crítica que redefiniu o papel das mulheres no cinema de ação.
Onde assistir: Prime Video, Mercado Play.
2. Guerreiras do K-Pop (2025)
Apesar de lançada sem grande divulgação, Guerreiras do K-Pop tornou-se um fenômeno global ao conquistar o Oscar de Melhor Animação em 2026. O filme acompanha Rumi, Mira e Zoey, um trio de ídolos do K-pop que lutam secretamente contra forças sobrenaturais. Com canções originais que dominaram as paradas musicais, a animação provou que histórias femininas podem ser tanto artísticas quanto comerciais.
Onde assistir: Netflix.
3. Barbie (2023)
Dirigido por Greta Gerwig, Barbie não foi apenas um sucesso de bilheteria — foi um fenômeno cultural. Protagonizado por Margot Robbie, o filme explorou temas como a busca pela perfeição, a liberdade feminina e a importância da autoaceitação. Com mais de US$ 1,4 bilhão arrecadados, a produção mostrou que o público está disposto a pagar para ver histórias femininas bem contadas.
Onde assistir: HBO Max.
4. Frozen: Uma Aventura Congelante (2013)
Outro marco da Disney, Frozen revolucionou a forma como as princesas são retratadas no cinema. Com uma história centrada em duas irmãs — Anna e Elsa — e canções que se tornaram hinos globais, como “Livre Estou”, o filme provou que protagonistas femininas podem carregar uma narrativa de forma magistral.
Onde assistir: Disney+.
5. As Meninas Superpoderosas
Criada por Craig McCracken, a série animada As Meninas Superpoderosas se tornou um ícone dos anos 2000. Com Florzinha, Lindinha e Docinho, um trio de heroínas que protegem a cidade de Townsville, a produção mostrou que meninas podem ser tão fortes e capazes quanto qualquer herói masculino.
Onde assistir: HBO Max.
6. Três Espiãs Demais
Outra série animada clássica, Três Espiãs Demais acompanha três adolescentes que levam uma vida dupla como agentes secretas. Com gadgets incríveis e tramas emocionantes, a produção inspirou uma geração de meninas a sonhar alto. Um exemplo de como a representatividade feminina pode ser divertida e empoderadora.
Onde assistir: HBO Max, Prime Video.
7. Frieren e a Jornada para o Além
No universo dos animes, Frieren e a Jornada para o Além se destacou como uma obra-prima. A história acompanha uma elfa que, após derrotar um rei demônio, embarca em uma missão pessoal para encontrar um novo propósito. Com uma narrativa profunda e personagens femininas complexas, o anime mostrou que o público está pronto para histórias femininas profundas e emocionantes.
Onde assistir: Crunchyroll, Netflix.
8. Red: Crescer é uma Fera (2022)
Produção da própria Pixar, Red: Crescer é uma Fera trouxe para as telas a história de Mei Lee, uma adolescente sino-canadense que se transforma em um panda vermelho gigante quando sente emoções intensas. O filme foi um sucesso de crítica e mostrou que a Pixar pode inovar ao apostar em protagonistas femininas.
Onde assistir: Disney+.
Conclusão: O futuro dos filmes com protagonismo feminino depende de nós
O cancelamento de Be Fri não é apenas uma perda para os fãs de animação — é um retrocesso para toda a indústria. Hollywood precisa entender que filmes com protagonismo feminino não são um nicho, mas uma necessidade. O público, cada vez mais diverso, está cansado de fórmulas repetitivas e anseia por narrativas que reflitam a realidade.
Felizmente, produções como Barbie, Frozen e Guerreiras do K-Pop já demonstraram que histórias femininas não só são viáveis como também extremamente rentáveis. Caberá aos estúdios, críticos e espectadores cobrarem por mais diversidade e representatividade. O futuro do cinema depende disso.
E você, qual é o seu filme com protagonismo feminino favorito? Compartilhe nos comentários!
