A China bloqueou formalmente a aquisição da startup de inteligência artificial Manus pela Meta nesta segunda-feira (27). A decisão foi publicada pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o órgão de planejamento estatal chinês, que pediu às partes o cancelamento da transação avaliada em cerca de US$ 2 bilhões (aproximadamente R$ 11,4 bilhões na cotação atual). China bloqueia Meta Manus em um movimento que enviou ondas de choque pelo setor de tecnologia global.
Os obstáculos desde o início
O negócio foi anunciado em dezembro de 2025. Na época, a Meta não publicou valores oficiais, mas fontes próximas à negociação ouvidas pela Reuters estimaram o valor da Manus entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões. O plano era integrar os agentes autônomos da startup aos produtos da empresa de Mark Zuckerberg, incluindo o assistente Meta AI. Além disso, a aquisição representava uma estratégia-chave para fortalecer a posição da Meta na corrida por inteligência artificial.
Pouco depois, em janeiro deste ano, o Ministério do Comércio da China iniciou uma revisão para avaliar se a transação violava regras de segurança nacional ou de controle de exportação de tecnologia. Em particular, as autoridades chinesas questionaram a transferência dos funcionários e da tecnologia da Manus para Singapura, e depois para uma empresa americana. No entanto, as investigações não pararam por aí.
Em março, o Financial Times reportou que os dois cofundadores da Manus, Xiao Hong e Ji Yichao, foram impedidos pelas autoridades chinesas de deixar o país enquanto a investigação estava em andamento. Portanto, o caso ganhou contornos ainda mais complexos.
Por que Pequim não queria ver a Manus nas mãos da Meta
A raiz do problema está na origem da Manus. Embora a empresa tenha sede em Singapura, foi fundada na China, e parte de sua tecnologia foi desenvolvida por uma companhia “irmã” registrada em Pequim. Por essa razão, a transferência tecnológica foi enquadrada como uma exportação que, em tese, exige licença do governo, especialmente quando o comprador é uma Big Tech americana.
A aquisição chamou atenção por representar justamente o tipo de movimentação que Pequim tem tentado coibir: o chamado “Singapore-washing”, modelo em que empresas com raízes chinesas transferem sua sede para a cidade-estado para escapar do escrutínio tanto de Pequim quanto de Washington. Assim, a decisão de bloquear o negócio com a Manus funciona como um recado direto para outros fundadores que cogitam estratégia semelhante.
Do lado americano, o cenário também era delicado. Legisladores nos EUA têm restringido investimentos de americanos em empresas de IA com vínculos chineses, o que tornava a transação um alvo de atenção em dois fronts simultaneamente. A decisão ocorre poucas semanas antes da cúpula aguardada entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, onde temas como tarifas e controles de tecnologia estão na pauta.
Desfazer a integração será complicado
Reverter a aquisição não é simples. Logo após o anúncio em dezembro, a Meta já havia integrado os sistemas da Manus à sua estrutura interna, e os executivos da startup passaram a atuar na empresa americana. Em nota à BBC em março, um porta-voz da Meta afirmou que “a excelente equipe da Manus já está profundamente integrada à Meta”.
Para a empresa de Zuckerberg, perder a Manus significa abrir mão de uma plataforma com mais de US$ 100 milhões em receita recorrente anual, alcançados apenas oito meses após o lançamento do produto. Esse dado é crucial, pois a corrida por agentes de IA contra Google e OpenAI está se intensificando a cada dia. A Manus desenvolveu o que chama de agentes de propósito geral: sistemas capazes de executar tarefas complexas de ponta a ponta com autonomia, como pesquisa de mercado, análise de dados e programação, sem necessidade de intervenção humana constante.
Em nota, a Meta afirmou que “a transação cumpriu integralmente a legislação aplicável” e que espera “uma resolução adequada para a investigação”, sem detalhar como pretende solucionar a questão com Pequim. O caso China bloqueia Meta Manus promete continuar gerando repercussões no cenário tecnológico mundial.
