O Cartel de los Soles é um dos temas mais controversos da política internacional contemporânea. O governo dos Estados Unidos, especialmente durante a gestão Trump, apontou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, como o principal líder dessa organização criminosa ligada ao tráfico de drogas. No entanto, especialistas contestam essa visão, afirmando que a realidade é mais complexa do que parece.
O que é o Cartel de los Soles?
O termo Cartel de los Soles foi originalmente criado pela mídia na década de 1990 para descrever generais corruptos da Guarda Nacional da Venezuela envolvidos no tráfico de drogas. Suas insígnias militares, que continham símbolos solares, deram nome ao grupo.
Portanto, ao contrário de cartéis tradicionais como o de Sinaloa ou o de Medellín, o Cartel de los Soles não possui uma estrutura centralizada. Trata-se, na verdade, de uma rede de redes, composta por agentes políticos, militares e criminosos que atuam de forma descentralizada.
Origens do envolvimento do Estado venezuelano
As raízes dessa corrupção estatal remontam a muito antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder em 1999. Contudo, após um breve golpe de Estado em 2002, Chávez intensificou a nomeação de militares leais a cargos estratégicos, tolerando a crescente corrupção dentro das forças armadas. Além disso, a pressão dos EUA sobre os grupos guerrilheiros colombianos, como as FARC, deslocou parte do tráfico para o território venezuelano.
Maduro e a governança criminal híbrida
Após a morte de Chávez em 2013, Nicolás Maduro assumiu a presidência em meio a uma grave crise econômica. Para manter o apoio das Forças Armadas, Maduro teria institucionalizado um sistema de governança criminal híbrida, no qual o tráfico de cocaína passou a ser parte integrante do funcionamento do regime.
Jeremy McDermott, cofundador do InSight Crime, explica que Maduro não controla diretamente o tráfico, mas sim o regula. O governo concede concessões a militares leais, permitindo que eles operem em áreas estratégicas do tráfico em troca de apoio político. Essa lógica transformou o Cartel de los Soles em um sistema de patrocínio criminoso.
Como funciona o apoio ao tráfico?
- Proteção de rotas de trânsito de drogas
- Uso de veículos oficiais para transporte
- Cobrança de “pedágios” em pontos estratégicos
- Facilitação de embarques em portos e aeroportos
Portanto, mesmo não sendo um traficante ativo, Maduro se beneficia de um sistema que lhe garante poder e recursos financeiros. Esse modelo se consolidou com o tempo e se intensificou após 2013, quando a crise econômica agravou a dependência do regime em relação ao tráfico.
A visão dos Estados Unidos: um simplificação perigosa
Em 2020, o governo Trump declarou o Cartel de los Soles como uma organização terrorista e ofereceu uma recompensa de US$ 50 milhões pela captura de Maduro. A justificativa era de que ele liderava o cartel e buscava “inundar” os EUA com cocaína.
No entanto, especialistas como McDermott apontam que essa é uma versão de Hollywood da realidade. O objetivo do grupo é essencialmente econômico, e não ideológico. O tráfico venezuelano abastece tanto os EUA quanto a Europa, o que indica que o regime não age com hostilidade direta aos Estados Unidos.
Mobilização militar e suas limitações
Após classificar o cartel como organização terrorista, o governo norte-americano posicionou uma frota militar perto da costa da Venezuela, com navios e aproximadamente 4.000 militares. No entanto, essa estratégia tem sido questionada por especialistas.
Segundo McDermott, a mobilização naval não impedirá a entrada de drogas nos EUA. Pelo contrário, ela pode desviar o tráfico para outros países sul-americanos, sem resolver a raiz do problema.
Conclusão
Em conclusão, o Cartel de los Soles não é liderado por uma única pessoa, mas sim sustentado por um sistema de poder paralelo dentro do Estado venezuelano. Embora Maduro não seja diretamente um traficante, ele é um beneficiário-chave de uma estrutura que mistura política, crime e corrupção. Entender essa dinâmica é essencial para formular políticas públicas eficazes contra o tráfico de drogas na América Latina.