O Instagram anunciou que encerrará o suporte à criptografia de ponta a ponta nas mensagens diretas (DMs) da plataforma a partir de maio deste ano. Segundo a Meta, a justificativa oficial é a baixa adesão ao recurso. Contudo, documentos judiciais revelam que a decisão gerou controvérsias internas muito antes de seu lançamento em 2021, levantando questões sobre segurança e privacidade.
A chefe de política de conteúdos da Meta, Monica Bickert, manifestou-se contrária à implementação da criptografia nas redes sociais da empresa em 2019. Essa informação veio à tona por meio de documentos enviados a uma ação judicial envolvendo a Meta no estado do Novo México, EUA, e divulgada pela agência Reuters em fevereiro deste ano.
Na época, Bickert classificou a medida como “irresponsável” e alertou que a empresa “estava prestes a fazer uma coisa ruim”. Em conversas internas, ela ainda afirmou: “Não estou muito investida em ajudar [Mark Zuckerberg, CEO da Meta] a vender isso”. Pouco depois, Zuckerberg publicou uma nota defendendo a tecnologia nos mensageiros.
Os Riscos por Trás da Criptografia
A principal preocupação de Bickert era a falta de proteção para identificar possíveis crimes graves nas plataformas, como planejamento de ataques terroristas ou exploração infantil. A criptografia de ponta a ponta codifica as mensagens de forma que apenas os participantes da conversa possam acessar o conteúdo, dificultando o rastreamento por parte das autoridades.
Dessa forma, a ferramenta ativada por padrão poderia ser usada como um “escudo” por criminosos. A Meta afirmou que as preocupações de Bickert foram consideradas durante o desenvolvimento da plataforma até o lançamento da função em 2023.
Segundo o jornalista Casey Newton, da newsletter Platformer, o recurso não chegou a todas as contas do Instagram, o que pode ter contribuído para a baixa adesão alegada pela empresa.
E o WhatsApp? Entenda as Diferenças
O WhatsApp usa a criptografia de ponta a ponta por padrão, enquanto no Instagram o modo era opcional. Porém, a plataforma não traria os mesmos riscos por não se tratar de uma rede social.
As DMs do Instagram e o Messenger do Facebook são vinculados a plataformas sociais nas quais é possível iniciar uma conversa sem ter total conhecimento da outra pessoa envolvida — encontrar um perfil aberto na busca e já enviar uma mensagem, por exemplo.
Essa característica torna as redes sociais um ambiente mais vulnerável ao uso indevido da criptografia, enquanto aplicativos de mensagens como o WhatsApp mantêm um contexto mais controlado entre os usuários.
A decisão do Instagram reacende o debate sobre o equilíbrio entre privacidade e segurança digital. Enquanto a criptografia protege a confidencialidade das conversas, também pode dificultar a atuação contra atividades ilícitas. O desafio para as empresas de tecnologia é encontrar soluções que preservem ambos os aspectos sem comprometer a experiência do usuário.
