A criptografia quântica representa um dos maiores desafios da cibersegurança moderna. Imagine um cenário em que senhas, dados bancários e comunicações sigilosas possam ser interceptados em minutos por máquinas ultrarrápidas. O que parece ficção científica é, em 2026, um desafio real para especialistas em cibersegurança: o avanço da computação quântica ameaça tornar obsoleta a criptografia tradicional, que protege desde aplicativos de mensagens até reservas internacionais.
O Que É a Criptografia Quântica e Por Que Ela Importa?
Para debater essa vulnerabilidade global, o centro de inovação CESAR, em parceria com o Banco do Brasil, realizou a primeira edição do co.labbs series. O evento, intitulado “Defesa Cibernética na Era Quântica: Estratégia, Resiliência e Futuro”, ocorreu em Brasília. Além disso, o encontro celebrou o Mês Mundial Quântico,highlighting a importância do tema para o cenário tecnológico brasileiro.
O horizonte para a maturidade dessa tecnologia tem uma data marcante no radar da indústria: estimado para 2029. De acordo com estudos recentes publicados pelo Google e acompanhados por órgãos globais de padronização, este é o ano previsto para que a computação quântica atinja a estabilidade necessária para realizar operações em escala industrial.
O Risco Real da “Colheita” de Dados Sensíveis
Embora pareça um prazo distante, para especialistas em segurança digital, a data representa um limite crítico. Isso porque, uma vez estabelecidos, esses sistemas terão a capacidade de comprometer protocolos de segurança que atualmente protegem a economia global.
Um dos pontos focais do evento foi o ataque HNDL, em que agentes maliciosos interceptam dados hoje para decifrá-los quando o hardware quântico atingir a maturidade (o chamado “Dia Q”). Portanto, a “colheita” de dados sensíveis já é uma realidade que exige atenção imediata.
Ana Cláudia Ramos, especialista em cibersegurança e privacidade do BB, explicou que algoritmos como RSA e ECC, pilares da segurança atual, são vulneráveis ao algoritmo de Shor. “Processos que levariam milênios na computação clássica serão resolvidos em frações de tempo”, alertou. Nesse sentido, a transição para a criptografia quântica torna-se urgente.
Além da Segurança: IA e Eficiência Industrial
Fábio Maia, coordenador técnico e pesquisador-chefe do Centro de Competência (Cissa), operado pelo CESAR, reforçou que minimizar o problema é o maior erro que uma instituição pode cometer. “A criação de conhecimento é muito difícil de prever. A coisa pode estar indo devagar e, de repente, ela chega. A única atitude racional é diminuir a exposição aos impactos negativos”, afirmou.
Apesar do alerta sobre os riscos, os especialistas também exploraram as oportunidades. Gustavo Botelho, engenheiro especialista em IA e computação quântica do BB, salientou que a tecnologia não substituirá a computação clássica, mas funcionará de forma híbrida para potencializar resultados. “Estima-se que o treinamento de modelos LLM que hoje demora oito meses cairia para duas horas com o computador quântico”.
Everton Dias, gerente de projetos e pesquisador em quântica do CESAR, detalhou que o centro já trabalha em parceria com a Febraban em pesquisas aplicadas, como o uso de Quantum Machine Learning para detecção de fraudes. “A tecnologia quântica é ampla, envolve computação, comunicação e sensoreamento. O primeiro passo é entender quais são os cenários para preparar as instituições”, explicou Dias.
Soberania Tecnológica e o Futuro da Segurança Digital
O debate em Brasília evidenciou que a segurança digital deixou de ser apenas uma questão técnica para se tornar um pilar da vida digital e da soberania nacional. Como o Banco do Brasil opera em diversos mercados globais, ele precisa estar alinhado a regulações internacionais de privacidade (como a LGPD e normas europeias) que serão impactadas pela quebra da criptografia.
A migração para o modelo “Quantum-Safe” exige um inventário profundo de onde os algoritmos atuais estão rodando, uma tarefa monumental para grandes corporações. “O melhor dia para começar a migração era ontem; o segundo melhor é hoje”, resumiu Maia. Em conclusão, o Brasil vive um movimento preventivo, e a adoção da criptografia quântica será fundamental para garantir a segurança dos dados nacionais nos próximos anos.
