Em 24 de março de 2016, Dark Souls III chegava ao Japão e marcava o encerramento de uma das franquias mais emblemáticas da indústria. Dez anos depois, seu legado permanece vivo, não apenas como um capítulo final, mas como um divisor de águas que ajudou a consolidar o subgênero soulslike, mesmo antes de outros jogos desse estilo chegarem ao mercado.
A gênese de um gênero: Demon’s Souls e o nascimento do desafio
Sete anos antes de Dark Souls III, Demon’s Souls surgia como exclusivo de PlayStation 3 e criava o caminho do que viria a ser o gênero. O jogo nasceu de um projeto abandonado e foi uma demanda da Sony, o que explica seu caráter exclusivo. Durante o desenvolvimento, Miyazaki e sua equipe esconderam o fato de que o game seria punitivo, preparando os jogadores para verem muito a tela “You Died”.
E Demon’s Souls realmente foi isso: um jogo com ritmo diferente, não era hack ‘n’ slash, era difícil e muito punitivo. Diferente dos Dark Souls e outros games do estúdio, ele só tinha um checkpoint (como as “bonfires”) por mapa, forçando o jogador a refazer todo o caminho após morrer, algo conhecido como “runback”.
Dark Souls: o salto de nicho para fenômeno
Dois anos depois, o mundo via o nascimento de Dark Souls, sucessor de Demon’s Souls e o primeiro de uma série que teria três games em cinco anos. Esse jogo chegou com gameplay mais pesado, o que por si só já aumentava a dificuldade. Ele trouxe muito da essência de seu antecessor, mas expandiu em diversos aspectos, com destaque para o level design.
Até hoje, 15 anos depois, o primeiro Dark Souls é visto como um pioneiro de mapas conectados, algo antes exclusivo de metroidvanias 2D, mas agora em 3 dimensões. O mundo interconectado, juntando diferentes regiões e recompensando o jogador explorador ao retornar para Firelink Shrine, o hub do game, para descansar e gastar suas suadas almas, ainda impressiona.
5 ideias de Dark Souls que viraram padrão da indústria
Dark Souls é punitivo, mas somente aos apressados e desatentos. Se você é gamer e está acostumado a jogar diferentes gêneros, estar atento aos padrões e ter paciência é aumentar suas chances de sucesso e diminuir a frustração. São vários aspectos que fazem a série ser assim e vamos destacar algumas delas.
Morrer e perder a moeda necessária para evoluir e comprar itens é o primeiro deles. Isso está presente em todos os games da franquia, além de Bloodborne e Elden Ring, fora vários soulslike que se inspiram nos jogos da FromSoftware.
Além disso, vemos ainda checkpoints que são um ponto de refúgio ao jogador; narrativa pelo ambiente e descrição de itens, mais do que cutscenes cinematográficas; chefes realmente desafiadores, que precisam de diversas tentativas até seu padrão ser compreendido; e exploração com grandes recompensas aos que realmente se arriscam.
O que é soulslike e como ele virou gênero
Um game é um soulslike quando junta todas essas características acima e mais, como gerenciamento de estamina, progressão, desbloqueio de atalhos mediante a exploração. Mas em cerca de 10 anos do gênero soulslike, tivemos vários títulos, com alguns deles realmente sendo inspirados pelas criações da FromSoftware, como outros soulslike de fato.
Como exemplo do primeiro grupo, temos títulos como Another Crab’s Treasure, franquia Nioh, Flintlock: The Siege of Dawn, entre outros. Esses têm alguns aspectos de soulslike, principalmente o combate e chefes desafiadores, mas tomam um caminho diferente em outras características, como tom do mundo e forma de narrativa.
Já games como Lies of P, Lords of the Fallen, The First Berserker: Khazan, The Surge, Mortal Shell, entre outros são games que dão “check” na lista de características que definem um soulslike. Essa é uma discussão um tanto calorosa entre a comunidade, então existem divergências, como o fato de Nioh não ser um soulslike de fato, embora exista quem o defenda como tal.
10 anos de Dark Souls III: por que o jogo foi tão importante
Dark Souls III foi um salto importante e necessário em relação ao seu antecessor. Entenda uma coisa caso não conheça a franquia: Dark Souls II divide as opiniões, mas você encontrará mais argumentos defendendo que ele é o menos Dark Souls da franquia por conta das mudanças que trouxe (algumas até usadas em Elden Ring, como o “power stance”). Na época de seu desenvolvimento, Miyazaki estava comprometido com Bloodborne e o diretor de DS2 tomou um rumo diferente.
Por isso, Dark Souls III chega resgatando muita coisa do primeiro jogo, principalmente as referências que dão continuidade à qualquer série, algo que ficou um pouco perdido no segundo jogo. Ele trouxe as melhores trilhas sonoras, os chefes mais emblemáticos da série, um mundo que se conectava (não tanto como no primeiro jogo) e fazia sentido novamente, algo perdido em Dark Souls II.
Além disso, esse jogo trouxe velocidade e fluidez à franquia, algo que Bloodborne entregaria um ano antes no PS4. Afinal, ambos foram desenvolvidos em paralelo. E esse grande aprendizado foi levado ao Elden Ring (sim, pulei Sekiro. Será que ele é um soulslike?), maior sucesso da FromSoftware.
Por que Dark Souls é tão difícil e mais curiosidades
Dark Souls é realmente difícil? Sim, mas é aquela coisa: basta pegar o jeito, que a dificuldade logo passa. Isso vem de alguém que nunca havia encarado um jogo do tipo, e na pandemia fez 100% nos três games e acumula centenas de horas em cada. Sim, dá para sofrer menos no jogo a partir do momento em que você o entende, e isso vale para qualquer outro do gênero.
Existe toda uma comunidade muito fiel à franquia, com discussões acontecendo o tempo todo em diferentes fóruns. Modders estão constantemente inventando algo simples, até alterando os jogos completamente e criando novos, como é o caso de Daughters of Ash (DS1) e Archthrones (DS3) que ainda está em desenvolvimento.
Além disso, existe uma competição acirrada em cada game da série no meio dos speedrunners. Diferentes jogadores tentando terminar os jogos no menor tempo possível, seja explorando as falhas dos games, ou jogando normalmente. Existe ainda uma categoria chamada “God Run”, onde os runners jogam Demon’s Souls, os três Dark Souls, Bloodborne, Sekiro e Elden Ring, e pasmem, sem levar um dano sequer.
Conclusão
Antes chamado de subgênero de RPG de ação, que era a proposta de Demon’s Souls, soulslike se tornou um gênero com suas próprias regras e conjunto de características únicas e é amplamente reconhecido pelos gamers. É um tipo de estilo jogo que, mesmo quem sofre levando o triplo do tempo para terminar, ao chegar no final, não quer parar (eu já vi inúmeros youtubers jogando soulslike pela primeira vez e essa é a sensação dessas pessoas).
Esses jogos colocaram a FromSoftware entre os estúdios mais respeitados da atualidade, depois de um sucesso depois do outro, além de Hidetaka Miyazaki como um dos gênios da indústria por criar algo tão complexo, sombrio e atraente ao mesmo tempo, juntando milhões e milhões de jogadores por anos.
