A geoeconomia emerge como uma das principais forças que moldam a nova ordem internacional no século XXI. Com o fortalecimento de instrumentos econômicos como tarifas, sanções, investimentos estratégicos e até mesmo moedas como armas de poder, países como os Estados Unidos reconfiguram suas relações comerciais e políticas com o mundo.
O que é Geoeconomia?
Geoeconomia é o uso de instrumentos econômicos para fins estratégicos e geopolíticos, algo que ganhou força com a ascensão de líderes como Donald Trump. Ao contrário da geopolítica tradicional, que se baseava em poder militar, a geoeconomia utiliza mecanismos como tarifas, subsídios, barreiras sanitárias e políticas monetárias para influenciar outros países e blocos econômicos.
Essa abordagem não é nova. Edward Luttwak já a descrevia em 1990, ao afirmar que os métodos comerciais estavam substituindo as tropas. Hoje, a realidade confirma esse diagnóstico, especialmente com a postura dos EUA sob a liderança de Trump, que aplicou tarifas severas a aliados tradicionais como México, Canadá, União Europeia e, mais recentemente, o Brasil.
Estados Unidos e a Nova Era Geoeconômica
Os EUA, outrora defensores da abertura comercial global, passaram a adotar uma postura cada vez mais protecionista. Em 2025, os dados da Fitch Ratings indicam que a tarifa média norte-americana chegou a 17%, após décadas de redução. Essa guinada reflete uma estratégia mais ampla de conter potências como a China, bem como isolar blocos como o Brics, do qual o Brasil faz parte.
Além das tarifas tradicionais, os EUA utilizam o poder do dólar como moeda de reserva global para exercer pressão sobre economias rivais. A estratégia é clara: manter a hegemonia financeira enquanto tenta limitar a influência industrial da China, que domina cadeias produtivas essenciais e minerais de terras raras.
Trump e o Golpe Geoeconômico contra o Brasil
Em julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifas de até 40% sobre as importações brasileiras, justificando a medida com alegações de práticas comerciais desleais — incluindo menções indiretas ao Pix. O presidente norte-americano também alegou perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro como motivação.
No entanto, especialistas apontam que essa justificativa é apenas uma cortina de fumaça. Na realidade, os interesses por trás dessas tarifas estão ligados à geoeconomia: controlar o uso do dólar, limitar o crescimento do Brics e pressionar o Brasil a se alinhar com os interesses dos EUA.
O Brasil na Mira da Geoeconomia
O Brasil se encontra em uma posição delicada nesse novo cenário. Historicamente, o país manteve uma posição equilibrada entre os EUA e a China, beneficiando-se do comércio com ambos. No entanto, com a escalada da geoeconomia, essa neutralidade torna-se insustentável.
- Desde 2009, o Brasil mantém déficit comercial com os EUA.
- Em 2024, o comércio bilateral com a China atingiu US$ 188,17 bilhões, representando 28% das exportações brasileiras.
- A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, enquanto os EUA impõem tarifas crescentes.
Diante disso, especialistas como Vera Thorstensen alertam: o Brasil terá que escolher entre alinhar-se aos EUA ou à China. Não há mais espaço para neutralidade estratégica.
A Crise da OMC e o Fim do “Mundo das Regras”
A Organização Mundial do Comércio (OMC), que por décadas regulou o comércio global com base em regras comuns, enfrenta uma crise existencial. A geoeconomia, ao incentivar ações unilaterais, mina o papel da organização.
Trump, no início de seu primeiro mandato, paralisou o Sistema de Solução de Controvérsias da OMC, bloqueando a nomeação de novos juízes. Joe Biden manteve essa postura. Sem esse mecanismo, países como o Brasil perdem uma importante ferramenta para defender seus interesses comerciais.
Segundo Vitor Ido, professor da USP, a OMC “ou se transforma ou vai deixar de existir”. E, mesmo que a organização reconheça violações, como no caso das tarifas norte-americanas, sua capacidade de impor sanções é praticamente nula frente a potências como os EUA.
Conclusão: O Futuro da Geoeconomia e o Brasil
A geoeconomia redefine as relações internacionais com base em interesses econômicos e estratégicos. Para o Brasil, isso significa repensar alianças, buscar novos mercados e rever sua posição no cenário global.
Portanto, o país precisa agir com urgência: diversificar parceiros comerciais, reforçar acordos com a União Europeia, Canadá e Ásia, e investir em políticas que fortaleçam sua soberania econômica. A era da geoeconomia não é apenas um novo capítulo da história global — é uma batalha pela influência, na qual o Brasil ainda precisa encontrar seu lado.