Músicas Geradas por IA: É Possível Publicar no Spotify e Outros Streamings?

Músicas geradas por IA podem ser publicadas no Spotify e outros streamings? Entenda as regras, direitos autorais e políticas das plataformas.

Músicas geradas por IA têm ganhado destaque com o avanço de ferramentas como o Lyria 3, do Google, que permite criar faixas de até 30 segundos a partir de comandos simples. No entanto, surge a dúvida: é possível publicar essas músicas em plataformas de streaming como Spotify, Deezer, Apple Music e Amazon Music?

Plataformas Não Impedem Publicação de Conteúdo Gerado por IA

A resposta mais direta é sim. Atualmente, serviços de streaming não contam com restrições específicas que impeçam a publicação de músicas geradas por IA. Segundo Paulo Henrique Fernandes, advogado e head de produtos e tecnologia da V+ Tech, o fato de uma música ter sido criada com ferramentas de IA integradas ao Gemini não a torna ilegal nem impede seu envio aos streamings.



O especialista ressalta que a IA, por si só, ainda não é motivo de bloqueio. No entanto, a questão em torno de faixas geradas de forma 100% sintética gira muito mais em torno de possíveis violações relacionadas à propriedade intelectual.

Problema é a Violação de Direitos Autorais, Não a IA

No anúncio do recurso de geração de músicas com IA, o Google afirmou que a tecnologia utilizaria artistas e músicas já produzidas apenas como “inspiração criativa”, ressaltando que não haveria “imitação” por parte da ferramenta. E é exatamente esse o principal ponto de atenção levantado por Fernandes.

Isso porque, ainda que os streamings não impeçam a publicação de músicas criadas parcial ou totalmente por IA, eles têm apertado cada vez mais o cerco contra possíveis violações de direitos autorais. O advogado detalha que o problema não reside no fato de haver uma produção como inspiração, mas sim em tentativas de clonagem de voz sem autorização ou uso indevido de identidade artística.



“Se a música gerada pela IA for apenas ‘inspirada’ em um estilo, gênero ou atmosfera, isso não configura violação. Estilo não é protegido por direito autoral. O problema começa quando há similaridade estrutural relevante em melodia, harmonia característica, letra ou arranjo distintivo que permita reconhecer a obra original. Aí pode haver alegação de plágio”, afirma o especialista.

No contexto brasileiro, essas violações vão ao encontro do que é estabelecido pela Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998). A legislação assegura aos autores o reconhecimento de sua autoria e o controle sobre a reprodução e a divulgação das obras. Músicas, partituras e produções sonoras estão entre as criações intelectuais protegidas pela lei, garantindo direitos ao criador automaticamente a partir da criação da obra — independentemente de registro formal. Vale ressaltar que essas normas se aplicam a eventuais infrações envolvendo conteúdos gerados tanto por humanos quanto por IA.

Cerco Contra Conteúdos Fraudulentos ou Gerados 100% com IA

Diante do crescimento de ferramentas de inteligência artificial com capacidade de produzir músicas com qualidade cada vez maior, os serviços de streaming musical tentam implantar mecanismos para mitigar o impacto desses conteúdos nas plataformas.

Um dos principais exemplos é a Deezer, que desde 2025 conta com uma ferramenta de detecção de músicas geradas por IA. O recurso permite acompanhar o aumento constante de conteúdos totalmente sintéticos no aplicativo, além de rotular explicitamente faixas criadas com inteligência artificial.

Deezer
Deezer conta com recurso de detecção e rotulação de músicas geradas por IA (Imagem: Divulgação/Deezer)

Dados divulgados pela Deezer apontam que, em 2025, cerca de 13,4 milhões de faixas geradas por IA foram identificadas na plataforma. Apesar de esse número representar entre 1% e 3% dos streams no app, o serviço constatou que 85% das execuções de conteúdos gerados sem interferência humana estavam associadas a práticas fraudulentas.

Algumas medidas práticas adotadas após a identificação de músicas geradas por IA incluem:

  • Exclusão de streams fraudulentos dos pagamentos de royalties;
  • Remoção de faixas 100% geradas por IA das recomendações algorítmicas;
  • Não inclusão de faixas totalmente sintéticas em playlists editoriais.

O Spotify, por sua vez, divulgou em setembro de 2025 um comunicado no qual aborda diretrizes relacionadas à proibição da clonagem de voz não autorizada e ao reforço de mecanismos contra spam. Nesse segundo ponto, o serviço apertou o cerco contra práticas como uploads em massa, duplicatas, manipulação de SEO e uso abusivo de faixas artificialmente curtas.

Paulo Fernandes destaca que esse tipo de ação é especialmente importante em um momento em que ferramentas de inteligência artificial podem ser usadas não só para produzir conteúdos, mas também para distribuí-los em grande volume e com pouca originalidade.

“O que mudou é o contexto: como as plataformas estão combatendo ‘farm de plays’ e spam, faixas muito curtas, lançadas em grande volume ou com variações mínimas, podem cair em filtros de abuso e perder recomendação, distribuição ou até ser removidas se parecerem parte de um esquema”, ressalta o advogado.

O Spotify afirma que, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, período em que houve uma grande expansão de recursos de IA generativa, foram removidas 75 milhões de faixas classificadas como spam da plataforma.

O Canaltech entrou em contato com serviços como Amazon Music e Apple Music para obter informações sobre mecanismos de identificação de conteúdos gerados por IA, além de números relacionados a esse tipo de música nos respectivos aplicativos. No entanto, não houve retorno até a publicação desta matéria.

Conclusão

Embora seja possível publicar músicas geradas por IA em plataformas de streaming, é fundamental estar atento às questões de direitos autorais e às políticas de combate a conteúdos fraudulentos. A inspiração em estilos e gêneros é permitida, mas a clonagem de voz ou uso indevido de identidade artística pode resultar em violações. Além disso, práticas como uploads em massa e faixas artificialmente curtas podem ser alvo de filtros de abuso, impactando a visibilidade e distribuição das músicas.

Para quem deseja explorar a criatividade com ferramentas de IA, o mais indicado é garantir que as produções sejam originais e estejam em conformidade com as leis de direitos autorais, evitando assim problemas futuros com as plataformas de streaming.