Sites Piratas: Por que é Quase Impossível Derrubá-los?

Entenda por que é quase impossível derrubar grandes sites piratas da internet e as estratégias que os mantêm ativos.

A pirataria na internet é como a Hidra de Lerna: se você cortar uma cabeça, nascem duas. Derrubar domínios clandestinos, atualmente, é apenas um inconveniente temporário para os administradores. Um exemplo perfeito é o caso do Anna’s Archive, que, mesmo tendo endereços derrubados pela Justiça, logo registrou mais três para manter suas atividades.

Mas por que os piratas virtuais continuam em atividade? Processos milionários, queda de infraestrutura e condenações não deveriam bastar para desincentivar a atividade? O problema, além de tecnológico, é mercadológico, e o Canaltech vai destrinchar tudo por aqui. Mas antes, um pouco de história.



Pioneiro inafundável: The Pirate Bay

O The Pirate Bay é um antigo conhecido por quem baixava séries, filmes e livros há décadas: o site sobreviveu a uma famosa batida policial na Suécia, em 2006, e segue em atividade até hoje. Abandonando os arquivos pesados, os responsáveis pelo repositório mudaram de tática para sobreviver.

O The Pirate Bay é um dos sites de pirataria mais conhecidos da internet: com uso de magnet links, todo o domínio é extremamente leve, permitindo realocação fácil (Imagem: The Pirate Bay/Divulgação)
O The Pirate Bay é um dos sites de pirataria mais conhecidos da internet: com uso de magnet links, todo o domínio é extremamente leve, permitindo realocação fácil (Imagem: The Pirate Bay/Divulgação)

O TBP passou a usar magnet links, linhas de texto que indicam o caminho do torrent, sem necessidade de baixar os arquivos que outros sites usam. Todo o acervo do site passou a pesar menos de 100 MB, cabendo em um pendrive simples.

Isso facilitou a criação de dezenas de sites clones, os mirrors, e tornou quase impossível derrubar o The Pirate Bay.



Terror das universidades: Sci-Hub

O Sci-Hub é um dos grandes repositórios clandestinos de artigos científicos. Criado por Alexandra Elbakyan, o site dribla processos milionários de empresas como a Elsevier, publicadora que recentemente também processou o Anna’s Archive. Como a página escapa dos ataques consistentes?

Simples: turismo de servidores. Os sites são hospedados em países que ignoram notificações judiciais de direitos autorais estadunidenses e europeias, como Rússia e Cazaquistão. Quando não há vontade política para cumprir as ordens internacionais, os mandados judiciais são basicamente inúteis.

“Netflix Pirata”: Popcorn Time e Stremio

Casos de pirataria de filmes e séries, como o Popcorn Time, usam a força do código aberto para sobreviver. Mesmo que os criadores do serviço clandestino tenham sido presos e o braço original de programação do projeto tenha sido derrubado, os detentores dos direitos autorais ainda perderam a guerra.

Serviços que permitem assistir filmes de maneira não-oficial existem de monte: o código aberto ajuda para que programadores criem sua própria versão facilmente (Imagem: Stremio/Divulgação)
Serviços que permitem assistir filmes de maneira não-oficial existem de monte: o código aberto ajuda para que programadores criem sua própria versão facilmente (Imagem: Stremio/Divulgação)

Como o código do aplicativo era aberto, milhares de programadores anônimos pegaram a base e desenvolveram sua própria versão: mesmo que um deles seja preso ou tenha o site derrubado, outros dez desenvolvedores surgem com outra versão, como o famoso Stremio.

Ração das IAs e a Dark Web: Z-Library e Anna’s Archive

O Anna’s Archive e o Z-Library também usam táticas semelhantes num “gato e rato” de domínios, perdendo extensões tradicionais como .com e .org para migrar para domínios exóticos, como .vg, .pk e .se.

Quando a internet aberta fecha as portas para os hackers, os repositórios acabam migrando para a dark web, como a rede Tor ou I2P, onde o rastreio do IP do servidor é criptografado. Assim, mesmo ordens judiciais não conseguem ter efeito físico.

Desenvolvedores de LLMs e chatbots se beneficiam das bibliotecas clandestinas para treinar seus modelos de linguagem (Imagem: Solen Feyissa/Unsplash)
Desenvolvedores de LLMs e chatbots se beneficiam das bibliotecas clandestinas para treinar seus modelos de linguagem (Imagem: Solen Feyissa/Unsplash)

Vale lembrar que grandes repositórios servem como “ração da IA”, ou seja, juntam catálogos enormes de mídia, como livros, séries e filmes que são “raspados” pelos grandes modelos de linguagem como forma de se informarem da maneira mais rápida e barata possível. Aos desenvolvedores de LLMs e chatbots, catálogos clandestinos são um prato muito cheio, muitas vezes podendo ser acessados com assinaturas VIPs.

A pirataria, acima de tudo, é um problema de acesso e preço. Enquanto a tecnologia moderna permitir backups descentralizados, com uso de blockchain e torrents, por exemplo, e a demanda do público e até mesmo das empresas persistirem, a Hidra seguirá viva. É muito difícil, quase impossível na verdade, tentar remediar a questão sem tocar na raiz do que a gera.