A indústria de videogames sempre se baseou na previsibilidade. Quando um jogo AAA era lançado, seu preço já era estabelecido por um padrão. Dependendo da escala de cada título independente, o mesmo ocorria nesta categoria.
Hoje, no entanto, a Sony implementou preços dinâmicos na PlayStation Store, alterando completamente este cenário. O que antes era uma compra previsível agora se tornou uma incógnita, onde o mesmo jogo pode ter valores diferentes para cada usuário.
Por que a Sony adotou preços dinâmicos?
A ideia de preços dinâmicos surgiu em aplicativos como Uber e iFood, onde eles são impostos para cobrir uma determinada “escassez”. No Uber, por exemplo, se há poucos carros em determinado bairro, os preços sobem e “quem paga mais” pega a carona mais facilmente.
No iFood, o valor muda de acordo com a quantidade de entregadores disponíveis e o número de estabelecimentos abertos. Em empresas aéreas, variações ocorrem para a quantidade de assentos disponíveis, proximidade a datas festivas e outros fatores.
O problema é que, ao aplicar este modelo a bens digitais, que possuem estoque infinito, a Sony não está lidando com escassez real. Dois usuários que fizerem a mesma compra não terão condições distintas dentro deste processo.
Como os preços dinâmicos afetam o consumidor?
A Sony está usando perfilamento psicológico do consumidor para maximizar lucros. Ela vai analisar seu perfil, determinar diferenças como consumidor e aplicar um valor único para cada pessoa. Isso significa que jogadores que acompanham de perto lançamentos e colocam jogos em suas Listas de Desejos sempre pagarão o preço mais elevado.
Enquanto isso, usuários que raramente ligam o console verão quantias sempre abaixo. Se você é fã de grandes franquias, a situação se torna ainda pior. Se você tem todos os FIFA e EA Sports FC lançados no PS5, por exemplo, a plataforma “saberá” que você comprará o próximo. Neste caso, a cobrança sempre será a maior possível, sem chances de ver reduções.
As consequências para a comunidade gamer
Esta prática pode gerar ansiedade e isolamento na comunidade. Jogadores terão medo de comprar títulos no lançamento, não pela experiência ser ruim, mas por pura “paranoia” de serem taxados pelo próprio algoritmo. Isso pode desmotivar acompanhar certas séries e criar um afastamento real de uma base que sempre nutriu a indústria.
Além disso, o efeito dominó é uma preocupação real. Se a prática da Sony der certo, outras empresas como Microsoft, Nintendo, Valve e Epic Games podem adotar o mesmo modelo, potencializando receitas no mercado.
O que pode acontecer com as promoções tradicionais?
Os preços dinâmicos da Sony podem representar a “morte” das tradicionais promoções sazonais — como Black Friday, Férias e outras. Em vez de grandes eventos de desconto, disponíveis para todos, teremos micropromoções invisíveis ao longo dos meses e personalizadas.
Neste caso, a PS Store deterá 100% do controle sobre as informações e impediria você de se preparar adequadamente. Hoje temos a previsibilidade de saber que meses como junho, novembro e janeiro trazem preços mais justos. Amanhã, só a companhia saberá e você que lute para pagar.
O poder do consumidor
Enquanto muitos aplaudem gráficos de ponta, perdemos o controle sobre as vitrines que nos vendem estes mesmos produtos. Além dos preços dinâmicos, os jogadores também têm de conviver com a falta de regionalização de preços na PS Store e da cobrança de IOF.
Debata com seus amigos, leve as discussões para toda a comunidade e se movimente para impedir que isso se torne um padrão. Nas redes sociais, conecte-se ao que é falado sobre o assunto e — com respeito aos profissionais — reclame. Fazer a sua voz valer pode ser a diferença entre uma prática maldosa e uma vitória para toda a sociedade.
