Meta demissões IA: Funcionários denunciam que treinam sistemas para perder seus empregos

Mais de 700 funcionários da Covalen em Dublin foram informados que seus empregos estão em risco. A Meta confirma que substituirá trabalhadores por sistemas de IA mais avançados.

Mais de 700 trabalhadores da Covalen em Dublin recebem notícia devastadora

A Meta confirmou nesta semana um dos casos mais emblemáticos da relação entre inteligência artificial e mercado de trabalho. Mais de 700 funcionários da Covalen, empresa terceizada que atua em Dublin, na Irlanda, foram informados de que seus empregos estão em risco. Além disso, aproximadamente 500 desses profissionais são anotadores de dados, responsáveis por revisar conteúdos gerados por modelos de IA da Meta e verificar se violam regras de segurança.

A comunicação aconteceu em uma reunião por vídeo extremamente breve, sem espaço para perguntas. Segundo relato de Nick Bennett, um dos trabalhadores presentes, a empresa não ofereceu explicações detalhadas. A justificativa enviada por e-mail foi genérica: “redução de demanda e requisitos operacionais”.



“Estamos treinando nossa própria substituição”, denunciam funcionários

A ironia da situação não passou despercebida pelos trabalhadores afetados. Um funcionário anônimo da Covalen declarou à WIRED: “É essencialmente treinar a IA para tomar nossos empregos. Tomamos ações como a decisão perfeita para a IA imitar.” Essa declaração revela o paradoxo que muitos profissionais de tecnologia enfrentam atualmente.

Bennett descreveu o trabalho como extremamente pesado. Os anotadores criam prompts elaborados para testar e contornar barreiras de segurança dos modelos de IA, avaliando respostas a conteúdos sensíveis como material de abuso sexual infantil ou descrições de suicídio.

Meta confirma substituição por sistemas de IA mais avançados

A Meta, por sua vez, foi mais direta em sua nota oficial. A empresa afirmou que, nos próximos anos, vai implantar sistemas de IA mais avançados para substituir a abordagem atual de moderação de conteúdo. Por isso, a empresa reduzirá a dependência de fornecedores terceirizados como a Covalen.



Essa não é a primeira vez que a Covalen enfrenta demissões em massa. Em novembro do ano passado, a empresa já havia anunciado cerca de 400 demissões, movimento que culminou em uma greve dos trabalhadores. Com as duas rodadas combinadas, o número de funcionários da empresa em Dublin está a caminho de ser quase reduzido à metade.

Cortes se espalham pelo setor de tecnologia

O caso da Covalen ilustra um padrão que se repete nas grandes empresas de tecnologia. Na semana passada, a Meta anunciou o corte de 10% de sua força de trabalho global, aproximadamente 8 mil pessoas, além de encerrar 6 mil vagas abertas.

A empresa prevê gastar US$ 135 bilhões em inteligência artificial em 2026, valor equivalente ao total investido nos três anos anteriores combinados. Em janeiro, o CEO Mark Zuckerberg já havia sinalizado essa mudança: “Acho que 2026 vai ser o ano em que a IA começa a mudar drasticamente a forma como trabalhamos”.

É a terceira rodada de demissões da Meta apenas em 2026. Em janeiro, mais de mil postos foram cortados no Reality Labs. Em março, outros 700 funcionários foram desligados.

O movimento não é exclusivo da Meta. Segundo o site Layoffs.fyi, mais de 92 mil trabalhadores do setor de tecnologia foram demitidos em 2026 até agora, elevando o total para quase 900 mil desde 2020. Amazon cortou mais de 30 mil funcionários, Oracle mais de 10 mil, e a Microsoft anunciou buyouts voluntários para cerca de 7% de seus funcionários nos EUA.

Impacto sobre os trabalhadores

Além da demissão em si, os trabalhadores enfrentam uma restrição adicional: um período de “resfriamento” de seis meses, durante o qual não podem se candidatar a vagas em outras empresas contratadas pela Meta.

O Sindicato dos Trabalhadores em Comunicações (CWU) está pressionando por negociações sobre indenizações e planeja se reunir com o governo irlandês para discutir o impacto da IA sobre os trabalhadores do setor. Christy Hoffman, secretária-geral da UNI Global Union, afirmou: “As empresas de tecnologia estão tratando os trabalhadores cujo trabalho e dados ajudaram a construir a IA como descartáveis”.